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Botos, peixes e camarões resistem à poluição da Baía de Guanabara, mas número de espécies diminui

Especialistas alertam que botos-cinza pode sumir em menos de 20 anos. População caiu de 400, na década de 80, para 40

Boto-cinza faz evoluções nas águas da Baía de Guanabara: população
de golfinhos vive na APA de Guapimirim e é monitorada por
pesquisadores da Uerj (Custódio Coimbra / Agência O Globo)
RIO — Com o corpo em formato de torpedo e nado ágil, eles lutam para não se tornar apenas uma lembrança estampada no brasão da cidade do Rio. Na década de 80, pesquisas apontavam que eram 400 os botos-cinza (Sotalia fluviatilis) que habitavam as áreas internas da Baía de Guanabara. Quinze anos depois, uma queda de 83% na população — para 67 animais — acendia o definitivo sinal de alerta. Hoje, os botos — popularmente chamados de golfinhos — da baía não passam de 40, segundo o Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Uerj, e se concentram na APA de Guapimirim.
— Se nada for feito, em menos de 20 anos os botos da baía terão desaparecido — lamenta José Lailson Brito Junior, coordenador do Maqua, que usa fotos para identificar os mamíferos, que têm marcas naturais e únicas na nadadeira dorsal.
Pesquisador do projeto Hippocampus, com sede em Porto de Galinhas, em Pernambuco, há um ano e meio o biólogo Cesar Bernardo Ferreira mergulha na baía. E já avistou cerca de 300 cavalos-marinhos. Entusiasmado por achar os sensíveis animais, ele credita o feito à melhoria na qualidade da água. Uma observação com a qual o chefe do Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, Marcelo Vianna, não concorda. Vianna lembra que sempre existiram cavalos-marinhos na baía. O que ocorreu, explica, foi a redução da população desses animais, que hoje se limitam às áreas menos degradadas.
Por cauda da poluição, diz Vianna, atualmente há um predomínio na baía de bagres e corvinas pequenos e de sardinhas boca-torta. Robalos, linguados, camarão-rosa e pescadas diminuíram:
— A pesca de linguado, por exemplo, está restrita ao canal central e à boca da baía (baixo estuário), onde há troca com a água do oceano na maré cheia. Mas a baía ainda apresenta riqueza de espécies de animais marinhos. São cerca de 230, incluindo arraias e alguns tubarões.
Pesca-se hoje cerca de 500 toneladas por mês na baía. Menos do que há 20 anos, lamenta Vianna, acrescentando que tanto a população de peixes como a de camarões vem diminuindo. Embora ressalve que as metodologias de contagem não sejam as mesmas, os números da produção sinalizam redução da quantidade de camarões: o volume pescado, que chegou a 379 toneladas em 1957, caiu para 88, em 2001, 68, em 2002, e 36 toneladas, em 2009.

PESCADOR: PROFISSÃO EM EXTINÇÃO NA BAÍA

Com a experiência de quem vai para o mar desde os 9 anos, o pescador Sérgio Santos, de Tubiacanga, confirma os dados da universidade:
— No passado, valia a pena um pai ensinar os filhos a pescar. Hoje, pescador é uma profissão em extinção na baía. Cheguei a pescar 50, 60 quilos de camarão por noite, há 15, 20 anos. Atualmente, pesco de três a cinco quilos. E o caranguejo está sumido do manguezal.
Apesar do ambiente adverso, as aves também resistem. A bióloga Ana Beatriz Aroeira Soares, colaboradora do Laboratório de Ornitologia da UFRJ, conta que mais de 200 espécies são vistas na baía. Algumas delas acompanham barcos de pesca, como atobás, gaivotas e trinta-réis
Em censos, realizados entre 2005 e 2007 através de sobrevoos, a equipe de aves insulares observou que o biguá, a garça-branca-grande, a garça-vaqueira e o migrante maçarico-de-perna-amarela eram as aves mais abundantes. Dentre as 15 espécies ameaçadas de extinção que costumavam ser vistas na baía, dez foram observadas no estudo. Entre elas, a marreca-caneleira, o colhereiro e o trinta-réis-real.

Fonte: O Globo

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