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Trecho às margens da Baía, da Baixada a Botafogo, tem índices de poluição intoleráveis

Dados oficiais mostram que, de 35 praias, apenas uma tem boas condições para o banho

Parte do Canal do Cunha, que desemboca nas proximidades da
estação de Alegria: recorde de poluição
(Custódio Coimbra/Agência O Globo)
RIO — Às vésperas de completar 84 anos e moradora há seis décadas da Avenida Rui Barbosa, no Flamengo, a professora de inglês aposentada Bianca Espínola limita seus passeios à orla do bairro a caminhadas no calçadão. Os filhos, lamenta, nunca puderam frequentar a praia perto de casa — nem tomar banho de mar, e sequer botar os pés na areia. A solução era levar as crianças para Ipanema. De lá para cá, diz ela, nada mudou:
— O pessoal passa a máquina na areia para ela ficar branquinha. Também não vejo placas que informem se a água está própria ou imprópria. E muita gente toma banho no Flamengo. Às vezes, alerto senhoras que estão com seus filhos na praia. Digo: "Suas crianças podem ter hepatite, infecção urinária e doenças de pele".
A preocupação de Bianca se confirma no resultado das análises das condições das águas da Baía de Guanabara feitas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Relatórios mostram que o trecho junto à margem, que vai de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a Botafogo, na Zona Sul, tem índices alarmantes de coliformes fecais. Em 2013, essa parte oeste da baía concentrou todos os sete pontos considerados “péssimos”: acima de 4.000 coliformes fecais por 100ml de água. Segundo resolução federal, para ser possível o contato secundário — aquele que iatistas e velejadores vão ter durante competições no local —, o patamar mínimo adequado é 2.500 coliformes. Já o limite dos indicadores de balneabilidade, que avaliam se a água está própria para o banho, é de mil coliformes por 100ml de água. Com mais de 4 mil coliformes/100ml, a água é classificada como “péssima”.
Mesmo tendo passado, nos últimos anos, por obras de recuperação ambiental, o Canal do Cunha, que recebe as águas escuras do Rio Faria-Timbó, que corta vários bairros da Zona Norte, continua clamando por socorro. Dos 21 pontos medidos pelo Inea, ele é o que apresenta a situação mais grave: na média de 2013, concentrou nada menos do que 200 mil coliformes por 100ml. Uma área praticamente morta, com índices de oxigênio próximos do zero. O raio X do espelho d’água da Baía de Guanabara, com áreas praticamente mortas e outras onde a vida ainda persiste, é assunto da terceira reportagem da série “Duas décadas de descaso”, que o GLOBO vem publicando desde domingo.

DAS 35 PRAIAS, APENAS UMA EM BOAS CONDIÇÕES

Os dados oficiais mostram ainda que se arriscar numa das 35 praias da baía não é um programa saudável. Apenas uma — a Praia Vermelha — apresentou condições de banho na maior parte dos meses do ano passado. A Praia de Botafogo, que emoldura um dos mais belos cartões-postais do Rio, nunca esteve própria ao banho desde que o Inea começou a fazer o monitoramento, em 2007. No ano passado, foi constatado ali índice de 5 mil coliformes fecais/100ml. Estatísticas que jogam contra quando o assunto é saúde pública.
Micoses, gastroenterites e hepatites estão entre os riscos que espreitam aqueles que se arriscam a um banho nas águas de praias da baía. Pesquisador do Departamento de Ciências Biológicas da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), da Fiocruz, Antônio Nascimento Duarte afirma que nenhuma praia da baía pode ser considerada apta à recreação. Em monitoramentos feitos nos últimos quatro anos em Paquetá e Ilha do Governador, o departamento vem encontrando índices altos de concentração de ovos e larvas de helmintos (vermes), tanto nas areias como no espelho d’água.
— Um parasita pode atingir até o cérebro ou os olhos, podendo levar à cegueira. Temos chegado a valores muito mais elevados do que os registrados nas praias oceânicas. A variedade e a abundância (dos contaminantes) são maiores no fundo da baía, onde há menos troca de água. A quantidade de animais soltos em Paquetá é um problema. São hospedeiros de parasitas intestinais que podem causar zoonoses — diz Duarte, para quem a situação não melhorou desde 2010. — Apenas com pesados investimentos em tratamento de esgoto é possível reverter o quadro. Não existem pontos irrecuperáveis.
O acúmulo de matéria orgânica despejada por milhares de pessoas que ainda não são atendidas por redes formais de esgoto é o principal flagelo da baía, avalia o professor de engenharia costeira e oceanográfica da Coppe/UFRJ Paulo Cesar Rosman. A explicação dele para a alta contaminação por coliformes fecais em sete pontos da baía está relacionada ao deságue de rios que passam por comunidades de baixa renda.
— Enquanto houver quatro milhões de pessoas vivendo mais preocupadas com a sua sobrevivência do que com a qualidade de vida, a chance de despoluir a baía é zero. O grande problema da baía é o volume boçal de esgoto, principalmente doméstico, que ela recebe.
Os pontos da baía considerados “ótimos” ou “bons” nas medições do Inea — foram dez em 2013 — estão concentrados na área leste, de Niterói a Guapimirim, onde há mais influência do canal central da baía. Consequentemente, mais troca de água com o mar aberto. Paulo Cesar Rosman, no entanto, ressalta que medir coliformes serve tão somente para ver se a água está própria para o contato primário ou secundário. Não se trata, portanto, na opinião dele, de um medidor de poluição.
— Uma água com baixo índice de coliformes não significa que esteja despoluída. Ela pode estar poluída por excesso de nutrientes, de carga orgânica — explica Rosman.

UM SOPRO DE VIDA EM GUAPIMIRIM

Em relação ao monitoramento, a assessoria do Inea afirma que a maioria dos pontos “sinaliza melhora quando comparados com a década de 90, graças aos investimentos que vêm sendo realizados nos últimos anos”. Sobre o fato de a série histórica ser descontínua — O GLOBO não conseguiu fazer uma análise da evolução de poluentes desde 1994, por ausência de dados —, o órgão alega que alguns pontos são novos; outros não são fixos. Um erro, na avaliação do engenheiro Adacto Ottoni, do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea):
— Para ter representatividade mínima, as coletas de amostras da Baía de Guanabara, para fins de avaliação da poluição de suas águas, devem ser sempre realizadas em pontos específicos e em períodos de maré baixa.
Cansada de conviver com a poluição à sua porta, a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiarádia, há 34 anos no bairro, lamenta só poder contemplar o mar de longe:
— O meu sonho é ver a enseada despoluída. Existe a promessa de implantar um programa de saneamento em Botafogo. Nossa maior esperança é que, com as Olimpíadas, as coisas mudem.
Na baía do século XXI, o fio de esperança que sugere que nem tudo está perdido atende pelo nome de Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim. Criada em 1985 pelo governo federal, a área de preservação concentra um bosque contínuo de manguezal de seis mil hectares, entre quatro municípios: Magé, Guapimirim, Itaboraí e São Gonçalo. É quase o dobro do tamanho da Floresta da Tijuca.
Diante do caos, esse pulmão da Guanabara guarda boas notícias. Desde 1994, quando o PDBG foi assinado, a preservação no local aumentou. Com base em estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o biólogo Maurício Muniz, chefe da APA, estima que, em 20 anos, foram reflorestados 1.600 hectares de mangue. A vegetação atua como “filtro natural”, aumentando a qualidade das águas dos rios que desembocam na baía.


Fonte: O Globo

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